Sinto muito por não ter tantas letras para escrever hoje. Mas certa transpiração é necessária, como se os pensamentos após um longo tempo de exercício saíssem pelos poros das mãos. Estou com uma idéia, uma idéia fantasmagórica de produzir mais um curta (na verdade todos os curtas que tenho produzido são tão "curtas" que nem chegam a saírem da tela do computador). Porém hoje, ah sim, hoje. Hoje só tenho que dizer que tive instantes de alegrias à dois, mas foi tão breve e tão estóico que sua rigidez pálida se transformou em arvore e decidi planta-la no bocado de terra que há em frente de minha nova morada. A riqueza de um carinho curto mas breve, firme e decisivo, porém quase utópico, por que nessa firmeza a força da atitude é desproporcional a razão. Dois desequilibrados, embebidos nas recordações vermelhas do passado, atrapalhados pela visão turva do amor idealizado, do rascunho traçado, do roteiro nublado. Depois o choro pela ausência de uma amizade que esta longe do físico corpo magro, o dinheiro não pago pelas duas belas guitarras vendidas, a musica bastarda que desejo tocar, o livro caro que desejo comprar e o cigarro que não queima faz alguns dias longos. Eu que olho para minha familia com um olhar rijo e firme, com o coração entre os dedos escorrendo de lágrimas, dos sóis que não brilham nas pupilas do olho cego. A familia desmembrada, usurpada pela distancia, pelo suor, pelo bolso, pela importância das palavras sussurradas em oração no escuro. O querer bem que se estende pelas cartas pausadas, emaranhadas pelas letras rabiscadas com a pressa da urgência da noticia.
Mas em tudo isso, vejo que já estou quase antevendo o fim, aquele fim glorioso de uma alma perene, diligente, desbravada. Hoje a noite vou ligar pra mim mesmo querendo rever meus amigos do passado, quando eu tinha cabelo amarelo e andava correndo, ensaiando mentiras, fazendo carinho no cabelo das meninas. Um atirado atirado ao martírio. Pois em cada lançamento de coração, houve um prazer inquieto, confuso, quente e denso. Hoje que a panela estoura, deixando o zumbido do escândalo e ela, a ela loira, beijando outro vagabundo mal cuidado, com bafo de leite semi-desnatado e uma pança de verme de índio. Elas do passado, ela do presente. Sim, eu que quero amar, mas esqueci como isso se faz. E digo pra morena voltar pra ele, pois ele tem mais sangue nas veias pra doar, mas voz no peito pra falar aos pequenos ouvidos, mas tempo no relógio para dar. Eu só tenho rabiscos em papel amarelado, musicas em formato reduzido e um pulmão preto pela lenha da emoção, e em breve chega a páscoa, recheada dos ovos lotados de cores coloridas, marketing que cheira a engano, comercial em vez da história verídica daquele que morreu de braços aberto, abraçando a todos. Quase mando tudo a merda, desejando que ela ligue e me diga que me espera na sala, de moleton e um sorriso supremo, mas na realidade o sofá me espera, pois esta casa não é a minha e aqui não posso fumar melancolias, só posso desejar que o outro dia amanheça.